Blindando o Futuro: Gestão de Projetos de Longo Prazo Separada do Ciclo Político

Sumário

O Custo de Confundir Política com Gestão

Em um país com necessidades urgentes de infraestrutura e desenvolvimento, projetos essenciais como um novo aeroporto, uma ferrovia interligada ou um grande plano de saneamento frequentemente exigem um horizonte de tempo de cinco, dez ou até vinte anos. No entanto, a nossa realidade política é governada por um ciclo eleitoral de apenas quatro anos.

Essa disparidade entre o tempo necessário para construir e o tempo de um mandato cria um dilema devastador: o Custo da Descontinuidade Administrativa.

A cada nova eleição, o sucessor tem o poder (e muitas vezes o incentivo político) de alterar, paralisar ou, pior, cancelar projetos iniciados pelo antecessor. O resultado é o desperdício de bilhões em recursos, obras paradas e a ineficiência crônica do investimento público. É o resultado de confundir dois papéis distintos:

  1. Política (O QUÊ): A definição ideológica e estratégica do projeto (A sociedade precisa de um novo aeroporto? Sim ou não?).
  2. Gestão (O COMO): A execução técnica, eficiente e a custo-benefício (Como e quando este aeroporto será construído?).

O Brasil precisa urgentemente de um mecanismo que blinde a execução técnica de projetos de longo prazo contra as mudanças do vento político. A solução não está em tirar o poder do político, mas sim em redefinir seu papel de controlador para auditor e patrocinador.

A Blindagem Legal: O “Banco Central” da Infraestrutura

A solução para a Descontinuidade Administrativa reside na separação institucional da Função Política da Função Técnica de execução. A analogia mais clara e bem-sucedida é a autonomia do Banco Central. Assim como o BC atua com autonomia para garantir a estabilidade da moeda, precisamos de um mecanismo que blinde os ativos físicos do país.

Propomos a criação de uma categoria legal de Projetos Estruturantes de Longo Prazo (PELP).

CaracterísticaBanco Central (BC)Agência Nacional de Infraestrutura (ANI)
Ativo ProtegidoEstabilidade da moeda e controle da inflação.Continuidade de projetos estruturantes e eficiência do investimento público.
NaturezaTécnica, desvinculada do Executivo (autonomia).Técnica, desvinculada do ciclo político.
Tomada de DecisãoBaseada em dados econômicos (Metas de Inflação).Baseada em dados de engenharia e gestão (KPIs de Custo, Prazo e Escopo).
Papel do PolíticoDefine a meta macro (ex: meta de inflação anual), mas não dita as taxas.Define a meta estratégica (o que construir), mas não dita o como construir.

O processo de criação de um PELP segue um ciclo rigoroso de validação técnica e popular:

  • Sugestão Técnica: A ANI aponta as áreas prioritárias onde melhorias estruturais são mais necessárias.
  • Definição Política: O governo atual (Executivo) escolhe uma prioridade estratégica dentre as sugestões técnicas e define o plano de onde virá o investimento (orçamento e fontes de financiamento).
  • Planejamento Detalhado: A proposta retorna à ANI, que elabora o planejamento de projeto detalhado, incluindo cronograma, milestones, impactos ambientais e sociais, e a definição da equipe técnica que irá gerenciar a execução.
  • Aprovação Popular (Plebiscito): Este novo projeto deve ser votado em plebiscito. Se aprovado, ele se torna um Projeto de Estado.
  • Validação Legal (Conselho Federal): Após a aprovação popular, o projeto deve retornar às câmaras legislativas (o Conselho Federal e o Senado) para que ajustes legais sejam feitos ou até mesmo criados para viabilizar o projeto. Uma vez aprovado nas duas casas, ele deve ser executado.

O Projeto de Estado e a Autonomia do Gestor

Uma vez aprovado em plebiscito, o PELP se torna um Projeto de Estado que não pode ser cancelado facilmente, exigindo um novo plebiscito para qualquer alteração substancial ou paralisação.

  • Gestor de Projetos (PMO): A execução é assumida por um Gestor de Projetos contratado por projeto e avaliado por performance, com autonomia semelhante à de um diretor do Banco Central. O mandato do Gestor é fixo e definido pela duração do projeto, não terminando com a troca de governo.
  • Controle e Transparência: O Executivo e o Legislativo mantêm o papel de Patrocinador (Sponsor) e Auditor, e devem acompanhar de perto a execução para garantir a correta aplicação e prestação de contas. O Gestor só pode ser removido por falha técnica comprovada (insatisfação dos KPIs), e não por divergência política.

A Estrutura da ANI e Seus Mecanismos de Performance

Para que a Agência Nacional de Infraestrutura (ANI) cumpra seu papel de “Banco Central” de Infraestrutura e garanta a autonomia técnica, ela deve ser composta por um corpo diretivo e funcional altamente especializado e ter mecanismos de auditoria transparentes.

A base da governança da ANI seria o novo Conselho Nacional de Infraestrutura (CNI). Este conselho é responsável por indicar e eleger, através de voto interno, os técnicos de carreira que comporão a Diretoria da Agência, blindando a escolha de interferências políticas.

O CNI deve ser composto por representantes do setor técnico, acadêmico e produtivo, distribuídos da seguinte forma:

  • Setor Técnico: 1/4 dos membros indicados pelo CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia).
  • Setor Acadêmico: 2/4 dos membros eleitos pelas Universidades Federais (foco em pesquisa e conhecimento).
  • Setor Produtivo: 1/4 dos membros indicados pela Federação das Indústrias (foco na execução e demandas de mercado).

O uso da divisão em quartos (CREA, Universidades Federais, Federação das Indústrias) equilibra a experiência prática (engenharia), o conhecimento acadêmico (pesquisa) e a perspectiva do setor produtivo (indústria).

A Diretoria da ANI, escolhida pelo CNI, deve ser composta por técnicos de carreira, inamovíveis e com mandatos fixos (não coincidentes com o Executivo Federal), focados na estabilidade e no longo prazo:

Cargo na ANIRequisitos MínimosMandatoPapel Principal
Diretor-GeralDoutorado em Engenharia, Economia ou Gestão Pública. Mínimo de 10 anos de experiência em gestão de grandes projetos.8 anos (não coincidentes com o mandato do Presidente Federal).Liderança estratégica, representação e alinhamento com a visão de longo prazo do Estado.
Diretor de PlanejamentoMestrado em Gestão de Projetos (PMI) e Mínimo de 7 anos de experiência em planejamento estratégico.6 anos (não reelegível).Elaboração dos Planos Detalhados (cronogramas, riscos e orçamentos) e definição dos KPIs.
Diretor de AuditoriaExperiência comprovada em compliance e auditoria pública ou privada de grandes corporações.6 anos (não reelegível).Fiscalização interna e definição dos critérios para a remoção dos Gestores de Projetos.

KPIs de Performance: O Foco na Entrega Técnica

A chave para o sucesso é que a remoção do Gestor de Projetos (PMO) de um PELP seja baseada exclusivamente em falha técnica comprovada, e não em discordância política. Para isso, são estabelecidos KPIs (Key Performance Indicators) de três naturezas:

KPI de PerformanceDescriçãoConsequência da Falha Recorrente
Prazo (Schedule)Aderência ao cronograma físico e financeiro (o caminho crítico do projeto).O PMO deve justificar à ANI o desvio. Desvios acima de 20% do prazo total podem levar à suspensão do PMO e revisão técnica.
Custo (Budget)Aderência ao orçamento aprovado em plebiscito, ajustado pela inflação oficial.Desvios acima de 15% do orçamento total (excluindo ajustes legais aprovados) desencadeiam auditoria imediata.
Escopo/QualidadeEntrega das funcionalidades e especificações técnicas conforme definido no projeto detalhado da ANI (ex: metragem de ferrovia, capacidade de aeroporto).Falha em atingir os requisitos de qualidade definidos por normas técnicas leva à auditoria e à redefinição de milestones.

O Executivo e o Legislativo podem questionar o Gestor de Projetos com base nestes KPIs. A única justificativa legal para a demissão do Gestor antes da conclusão do projeto é a incapacidade comprovada de manter o projeto dentro dos limites de performance (KPIs) definidos pela ANI.

Conclusão

A Descontinuidade Administrativa não é um acidente; é uma falha estrutural do nosso ciclo político. O investimento público, vital para o desenvolvimento de um país, não pode continuar refém da inconstância de mandatos de quatro anos.

Nossa proposta resolve esse dilema separando a Função Política (o QUÊ) da Função Técnica (o COMO) através da criação da Agência Nacional de Infraestrutura (ANI).

Ao modelarmos a ANI com uma autonomia técnica analoga a do Banco Central, garantimos que os Projetos Estruturantes de Longo Prazo (PELP) sejam geridos com foco exclusivo em desempenho (KPIs de Custo, Prazo e Escopo) e não em barganhas eleitorais. A inclusão da validação popular via plebiscito e a fiscalização técnica por um Conselho Nacional de Infraestrutura (CNI) transformam o PELP em um verdadeiro Projeto de Estado, inamovível e construído sobre o consenso.

Esta é a essência do Vetor Social: trocar o desperdício crônico pela estabilidade técnica, garantindo que o futuro de um país não seja interrompido a cada eleição.

O que você pensa sobre a ideia de blindar projetos de longo prazo com a autonomia de um Banco Central? Você acredita que o plebiscito é o mecanismo ideal para transformar um projeto de governo em um projeto de Estado?

Deixe seu comentário e ajude-nos a traçar o próximo vetor para o desenvolvimento sustentável e eficaz.

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